O INIMIGO INTERNO

e tendo por fim se libertado
ele estendeu a mão em minha direção
a mão pálida de quem não sabia
que havia um sol fora de meu corpo, seu lar
e tendo feito isso sorriu com enorme felicidade
e eu não pude fazer nada mais do que segurá-la
e ela se transformou em uma garra
ele me puxou para si e me beijou com doçura
e carrasco e vitima se confundiram
pois a vitima havia gerado o carrasco
havia alimentado o carrasco e o abrigado
dentro de meu próprio corpo
quiçá por vários anos
quiçá por algum motivo

AS TRINCHEIRAS

passamos o dia cavando trincheiras
não importa se o inimigo está ou não à vista
não importa se chove ou se o calor é insuportável
fazemos isso todos os dias de nossas vidas
nos entrincheiramos em nossa personalidade
nos entrincheiramos em nossos medos
nos entrincheiramos em nossas ilusões
nos entrincheiramos dos outros, do mundo
 
algumas de nossas trincheiras são só nossas
e estamos lá como “reis da trincheira”. Vivas!
mas sem servos para nos servir
mas sem corte para nos bajular
 
algumas de nossas trincheiras são coletivas
e trocamos todos tapinhas nas costas
enquanto silenciosos inimigos nos cercam
por todos os lados, baionetas caladas

A MINHA SOLIDÃO É MINHA CASA

a minha solidão é minha casa
silenciosa como manhãs de feriado
acolhedora como capas de livro
branca como paredes de um hospício
 
a minha solidão é minha casa
com luzes sempre ele metade
com chaleiras apitando na cozinha
e uma tv velha ligada e esquecida
 
a minha solidão é minha casa
e longe dela me sinto aflito
afogado em um mundo de ruídos e gestos
ansiando pela quietude do exílio

 

SOBREVIDA

algumas noites você não sobreviverá
algumas noites você não passará incólume
e perceberá que perdeu pequenos pedaços de si mesmo
que apesar de invisíveis e microscópicos
deixaram buracos desproporcionais em tua alma
 
algumas noites, não todas, você não sobreviverá
e velhos sonhos te atormentarão
muito mais do que velhos pesadelos
e você perceberá que está fraco demais
e cínico demais, e com raiva demais
para sequer fingir que é uma dor possível
 
algumas noites serão tão, tão longas
uma condenação perpétua e infinita
e talvez você tenha que se embriagar ou se drogar
para não deixar que esse milhão e meio de demônios
te enlouqueçam de dor, medo e desespero
e apesar disso você não sobreviverá
pois toda ocultação terá desaparecido

 

PEQUENO POEMA BOBO SOBRE A VERDADE, A GRATIDÃO E O ESTUDO

a verdade é que sou grato por falar bem o português
e por saber escrever poemas em português
 
sou grato por ter cantado em obscuras bandas de rock
e por saber fazer bossas
 
sou grato por conhecer livros que ninguém mais leu
e escrever outros que ninguém vai ler
 
sou grato por ouvir debussy, liadov, satie
enquanto o que se ouve por ai…
 
enfim, e para não me estender,
sou grato por ter cultura
 
e ainda que esse seja um poema bobo
sou grato por saber o que é um poema bobo

 

O CÃO E A LOTERIA

eu lhe prometi que viveria
um dia a mais do que ela
e agora me pergunto o que farei desse dia
enquanto a observo subir no telhado
 
a boa esperança foi-se
e ficou só aquela sensação
de que rezamos o tempo todo
para o deus errado
 
mas não vou perder meu último dia
me perguntando sobre os sentido da vida
então busco no google
“o que fazer no seu último dia”
 
nenhuma resposta me convence
então lhe peço para descer da escada
e lhe digo que ganhei na loteria
e que lhe comprarei um cão
 
desconfiada ela hesita
a mercê do vento e da gravidade
a culpa é minha, exagerei
ela bem sabe: nunca lhe comprarei um cão

 

UM HOMEM DE PALAVRA

sou um homem feito de palavras
preenchido de letras e frases
sentenças são meus ossos
e minha carne é, na verdade,
uma massa de discursos infinitos
se dobrando e desdobrando
em busca de luz, de posteridade
 
então primeiro cresço
cresço com minhas letras
silabas e fonemas
em certo momento
meu corpo atinge o apogeu
e então vem a queda
gradativa, mas constante
 
e enquanto perco
músculos, elasticidade
e boas doses de colágeno
perco também as palavras
no olvido da velhice
no olvido de quem
já quer despertencer
 
e então o discurso acaba
e só me resta aguardar, sereno
pelo último verso

 

NOTURNICES

confesso que adoro teu jeito
quando tenta ficar melancólica
e faz cara de intelectual dos anos 60
como se fosse vizinha de sartre
ou jogasse pétanque com foucault
 
gola rolê e esse penteado bobo
de esquerdista boba
e não falo da boca pra fora
realmente gosto do teu jeito
de esquerdista démodé
 
o tal olhar soturno
sexy, blasé, decadente
deitada na chaise long da saleta
um livro apoiado no peito
a mercê de dedos sujos de queijo
 
ouço o virar de páginas densas
falsamente densas
afinal tudo é falso hoje em dia
e vivemos na infinita emulação
do que deveríamos viver
 
mas eu adoro o prazer que tiramos
mesmo das coisas falsas
das nossas falsas vidas
de nossos falsos sentimentos
falsas melancolias
 
como essa tua tristeza de novela
ao cruzar o olhar com a luz
âmbar de teu copo de whisky
e girar o que resta do gelo
com um dedo engordurado

 

OS GESTOS QUE TE HABITAM

tuas mãos cruzam o ar
eu quieto, só esperando a reação do mundo
afinal os gestos que te habitam
movimentam o universo à tua volta
e me condenam ao silêncio obsequioso
 
essas tuas coreografias, conheço todas
há anos as observo e estudo
desde sutis inclinações das mãos
até gestos largos e teatrais
que você nunca economiza
 
e não são poucos, esses gestos
às vezes temo que você vá explodir
enquanto eles se enfileiram e empurram
querendo sair de teu corpo
todos juntos, ao mesmo tempo, agora

MARCHA FÚNEBRE

eu vou ao encontro de vós
vós que morreram e me aguardam
homens e mulheres
crianças e velhos
de todas as raças, credos
de todas as cores
posso imaginá-los como um mar de cadáveres
ou posso vê-los como uma multidão
 
uma coleção de vidas e experiências
posso imaginá-los como um nada
ou posso tentar sentir seu calor
suas mãos quentes e seus sorrisos amistosos
iluminando o vazio mais negro
para generosamente me receber